“Cosmos”, por Carl Sagan

A Terra, um ponto azul pálido perdido na imensidão do espaço. Crédito: NASA/JPL.

A Terra, um ponto azul pálido perdido na imensidão do espaço. “As fronteiras nacionais são pouco evidentes quando do espaço se observa a Terra” (Carl Sagan).

A ideia da obtenção da foto acima partiu do cientista norte-americano Carl Sagan. Captada em 1990 pela sonda Voyager 1, a milhões de quilômetros da Terra, a imagem faz parte de uma sequência de fotografias, com as quais se pretendeu ilustrar o nosso Sistema Solar visto do exterior.

Carl Edward Sagan: cientista e astrônomo norte-americano (1934-1996).

Carl Sagan (1934-1996) foi um cientista e astrônomo à frente de seu tempo. Foi consultor e conselheiro da NASA desde os anos 1950, orientou os astronautas do programa Apollo antes dos seus voos à Lua, idealizou e concebeu várias experiências científicas para as históricas expedições Mariner, Viking, Voyager e Galileo aos planetas.

O premiado cientista deixou vasto legado à humanidade. Ele foi um dos maiores divulgadores da ciência de todos os tempos ao apresentar a série de Tv “Cosmos” (1980) – baseada em seu best seller de mesmo nome – vista por mais de 500 milhões de pessoas em sessenta países.

“Cosmos” (1980): série de Tv criada por Carl Sagan, vista por mais de 500 milhões de pessoas em sessenta países.

Reproduzimos abaixo um trecho da obra “Cosmos”, de Carl Sagan, que diz que devemos defender a Terra e lutar por nossa sobrevivência, pois, caso contrário, quem fará isso por nós? Confira:

“O Cosmos foi descoberto apenas ontem. Durante um milhão de anos todos aceitaram que só a Terra existia. Depois, no último milésimo de vida da nossa espécie, nesse instante entre Aristarco e nós, verificamos com relutância que não éramos nem o centro nem o objetivo do Universo, mas que vivíamos num mundo pequeno e frágil, perdido na imensidade e na eternidade, à deriva num grande oceano cósmico semeado aqui e ali de cem mil milhões de galáxias e milhões de biliões de estrelas.
Sondamos corajosamente as águas e achamos o oceano ao nosso gosto, de acordo com a nossa natureza. Algo dentro de nós reconhece o Cosmos como sua casa. Somos feitos de cinza estelar, a nossa origem e a nossa evolução estão ligadas a acontecimentos cósmicos distantes. A exploração do Universo é uma viagem de auto-descoberta.
Já o sabiam os antigos construtores de mitos: somos filhos do céu e da Terra. Desde que iniciamos a ocupação do planeta acumulamos uma perigosa bagagem no decurso da nossa evolução: propensões hereditárias à agressão e ao ritual, submissão aos chefes e hostilidade para com os estranhos, que põem em perigo a nossa própria sobrevivência. Mas, em contrapartida, também ganhamos a compaixão pelos outros, o amor pelos nossos filhos e pelos filhos dos nossos filhos, um desejo de aprender a partir da História e uma inteligência apaixonada sempre a tentar chegar mais longe – tudo instrumentos de sobrevivência e prosperidade.
Quais os aspectos da nossa natureza que irão prevalecer – não o sabemos: sobretudo quando nos esforços de compreensão e nos nossos projetos nos limitamos à Terra, quando não mesmo a uma pequena parte da Terra. Ora, na imensidade do Cosmos esperam-nos perspectivas que não podemos ignorar. Não possuímos ainda nenhum sinal óbvio da existência de inteligências extraterrestres. Deveremos concluir disso que civilizações como a nossa acabam sempre por mergulhar, inevitavelmente, na autodestruição? As fronteiras nacionais são pouco evidentes quando do espaço se observa a Terra: é difícil apoiar entusiasmos fanáticos, sejam eles étnicos, religiosos ou nacionalistas, quando ante nós o nosso planeta surge como um frágil e evanescente crescente azulado, prestes a tornar-se um ponto indescernível no meio do bastião, da cidadela das estrelas. Viajar enriquece os espíritos.
Existem mundos em que a vida nunca surgiu. Existem mundos que foram queimados e reduzidos a ruínas por catástrofes cósmicas. Tivemos sorte: estamos vivos, somos poderosos, temos em mãos o bem estar da nossa civilização e da nossa espécie. Se não formos nós a defender a Terra, quem o fará? Se não nos empenharmos na nossa sobrevivência, quem se empenhará por nós?”

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